Clube de leitura Cria das Letras chega a unidades socioeducativas em mais seis estados
- Publicado: Sexta, 20 Fevereiro 2026

O projeto Cria das Letras, que implementa clubes de leitura em unidades socioeducativas, entra em sua segunda fase em 2026 com expansão para seis novos estados — Rio de Janeiro, Mato Grosso, Tocantins, Espírito Santo, Acre e Rio Grande do Sul. A iniciativa é coordenada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no âmbito do Programa Fazendo Justiça, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e o Grupo Companhia das Letras. A ação também integra a Agenda Justiça Juvenil, desenvolvida pelo CNJ para o fortalecimento de políticas para garantia de direitos de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa.
Criado como experiência piloto em 2024, o projeto começou em quatro estados: Pará, Pernambuco, Paraná e Roraima. Cada um recebeu a doação de 150 livros, com títulos definidos de forma participativa com os adolescentes. A ampliação do acervo busca responder a um desafio estrutural do sistema: dados do Censo Nacional de Leitura no Socioeducativo apontam que cerca de 40% das unidades não contam com biblioteca e que uma em cada cinco não realiza atividades regulares de incentivo à leitura.
“O acesso à cultura é um direito com especial relevância no contexto da socioeducação pelo caráter formativo e transformador para aqueles e aquelas adolescentes”, afirma o juiz coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (DMF), Luís Geraldo Sant’Ana Lanfredi.
Para viabilizar os clubes de leitura, o projeto prioriza a formação das equipes das unidades socioeducativas para atuarem como mediadores. A parceria com a Companhia das Letras também inclui conversas com autores, diagnóstico de ações culturais e a publicação de um boletim trimestral sobre literatura e oportunidades.
Para o desembargador Ruy Muggiati, coordenador adjunto do DMF/CNJ, o projeto contribui para qualificar as respostas do sistema socioeducativo. “A leitura amplia repertórios, fortalece vínculos e cria oportunidades para que adolescentes construam novos projetos de vida e ampliem suas visões de mundo. Trata-se de uma ação alinhada ao compromisso do Judiciário com políticas públicas baseadas em direitos e evidências”.
Aprovação em alta
Uma pesquisa aplicada com adolescentes participantes e profissionais responsáveis pela mediação avaliou os resultados da primeira fase do projeto. Os dados mostram alta aprovação da iniciativa entre adolescentes: 100% consideram importante que o clube continue na unidade. Além disso, 94,4% afirmaram que o espaço contribuiu para conversar, escutar e aprender com colegas, e o mesmo percentual disse que a mediação sempre ajudou na compreensão dos livros e na condução das conversas.
O projeto também estimulou o interesse pela leitura: 55,6% relataram aumento significativo da vontade de ler, enquanto 27,8% indicaram aumento moderado. As atividades do clube foram consideradas interessantes por 77,8% dos participantes.
Na avaliação dos mediadores, 81,3% afirmaram que temas sensíveis trazidos pelos livros foram trabalhados com tranquilidade. Além disso, 68,8% observaram aumento do interesse pela leitura e melhora na convivência e na escuta entre adolescentes, e 50% relataram maior protagonismo juvenil nas atividades. A participação dos adolescentes foi classificada como muito boa por 75% e boa por 18,8%, enquanto 81,3% apontaram que as formações fortaleceram o trabalho de mediação.
“Os dados da pesquisa mostram que os clubes de leitura geram engajamento, ampliam o interesse pela leitura e fortalecem a convivência nas unidades. Os resultados indicam que investir em mediação qualificada e na participação dos adolescentes na escolha dos livros produz efeitos concretos no cotidiano socioeducativo”, explica a juíza auxiliar da Presidência do CNJ com atuação no DMF, Andréa Brito.
Leitura em prática
“Embora trabalhemos também com profissionalização, cultura, lazer e esportes, a leitura tem um diferencial porque permite enxergar o mundo de outra forma”, celebrou a juíza coordenadora do eixo socioeducativo do GMF do TJMT, Leilamar Aparecida Rodrigues, durante o lançamento do projeto no Mato Grosso.
No Centro de Socioeducação Professor Antônio Carlos Gomes da Costa (Cense PACGC), no Rio de Janeiro, adolescentes participantes do clube de leitura trabalharam o livro Soundtrack, de Guilherme Match e Rashid MC. A obra serviu como ponto de partida para reflexões sobre identidade, escolhas e experiências de vida.
Mel*, uma das participantes, relata que a leitura estimulou novas formas de pensar e compreender a própria trajetória. Segundo ela, cada história traz aprendizados e provoca reflexões sobre decisões, sentimentos e possibilidades de mudança. “Quando estou lendo, entro no mundo do livro. Isso ajuda a pensar sobre a vida e sobre quem eu quero ser”, resume.
Vitor*, também integrante do clube, destaca o impacto da atividade no cotidiano da unidade. Para ele, os encontros tornam a rotina mais leve e oferecem um espaço de distração e aprendizado. “Cada história traz um recado. Ler faz bem para a mente e para o coração”, afirma.
Para Daniele Menezes, psicóloga da unidade e mediadora dos encontros no Cense PACGC, a leitura ganha força quando é compartilhada. Segundo ela, o clube cria um espaço de troca, escuta e construção conjunta de sentidos. “O livro ganha vida quando alguém lê e compartilha. O clube de leitura é uma vida compartilhada. Aprendi muito com o olhar dos adolescentes. Foi uma das experiências mais marcantes da minha atuação no sistema socioeducativo.”
Continuidade e fortalecimento
Além da expansão para novas unidades, o Cria das Letras segue em funcionamento nos estados que integraram a fase piloto. Em Pernambuco, por exemplo, neste novo ano, a iniciativa acontece em unidades do interior do estado, alcançando os centros masculinos de Caruaru e Garanhuns e a unidade feminina de Arcoverde. Para Carla Nunes Braga, analista em gestão socioeducativa e mediadora do projeto no Case Garanhuns, a expectativa para a nova fase envolve o fortalecimento das habilidades de leitura, escrita e comunicação, além da redução de conflitos e do incentivo ao diálogo, ao respeito mútuo e à convivência coletiva.
“Na prática, os encontros impactam a forma como os adolescentes se expressam, se relacionam e projetam o futuro. A leitura amplia o repertório linguístico, fortalece a comunicação e favorece a empatia ao apresentar diferentes histórias, realidades e trajetórias”, explica Carla.
*Nomes foram alterados para preservar a identidade dos adolescentes
Fonte: CNJTexto: Renata Assumpção, com informações do TJMTEdição: Nataly Costa e Debora Zampier












